Gonçalo Vieira é geógrafo, professor associado do IGOT-ULisboa e investigador do CEG, onde integra o ZEPHYRUS – Grupo de Investigação em Alterações Climáticas e Sistemas Ambientais. É vice-presidente da International Permafrost Association (IPA), coordenador do PROPOLAR – Programa Polar Português, Diretor do Colégio de Ciências Polares e de Ambientes Extremos da ULisboa e Coordenador Científico do Estrela UNESCO Global Geopark.

Atualmente, é investigador responsável do IGOT/CEG em vários projetos sobre permafrost e alterações climáticas no Ártico e na Antártida, bem como pela componente de deteção remota em vários outros projetos em Portugal. O projeto mais recentemente iniciado foi o EO4PAC – Earth Observation for Permafrost dominated Arctic Coasts, financiado pela ESA.

P1. O PROPOLAR é um programa com 13 anos. Qual considera ser, até hoje, a maior conquista deste programa?

Antes do Ano Polar Internacional 2007-08, a ciência polar em Portugal não tinha qualquer enquadramento formal e os cientistas que trabalhavam nas regiões polares, faziam-no de forma esporádica e totalmente dependentes de cooperações pontuais com colegas estrangeiros. Nesse ano, a comunidade portuguesa com experiência de investigação polar propôs à Fundação para a Ciência e a Tecnologia lançar as bases para um futuro programa polar nacional, que permitisse aos cientistas de instituições portuguesas aceder às regiões polares para fazer investigação. Entre várias conquistas do PROPOLAR, a mais importante foi, sem dúvida, desde há cerca de 11 anos conseguirmos abrir convocatórias anuais para projetos de investigação polar. Neste quadro, centenas de cientistas e estudantes nacionais têm colaborado no esforço internacional para melhor compreender o Ártico e a Antártida e as suas interações com o sistema global. Hoje, o PROPOLAR é um programa multidisciplinar consolidado e que ganhou uma notoriedade internacional inegável, permitindo a Portugal encontrar-se representado nas principais organizações internacionais ligadas à logística e ciência polar. O IGOT e o CEG têm tido um papel muito relevante para este sucesso das ciências polares em Portugal, pois gerem o programa e são o cerne do esforço logístico nacional e de cooperação nas regiões polares.

P2. Fale-nos um pouco do projeto EO4PAC. Qual a sua faceta mais inovadora?

O solo permanentemente gelado, ou permafrost, é um dos mais importantes componentes do sistema climático global, ocupando, no Hemisfério Norte, cerca de 20% da área dos continentes – uma área enorme! Ao longo de milhares de anos, o permafrost do Ártico foi acumulando no seu interior grandes quantidades de matéria orgânica que sobre ele se depositou, sem nunca se chegar a decompor. Nas altas latitudes, as plantas e os animais, quando morrem, não se decompõem como em ambientes mais temperados. Assim, com o tempo, o solo gelado foi-se enriquecendo progressivamente em matéria orgânica. Com o aumento da temperatura que se tem feito sentir, em particular nas últimas décadas, o permafrost do Ártico está a aquecer a uma velocidade que até há poucos anos era impensável. Essa matéria orgânica, antes isolada do sistema climático, passou a estar exposta à ação dos decompositores, que assim a transformam em compostos como o dióxido de carbono e o metano, que são potentes gases de efeito de estufa. Além disso, a degradação do permafrost, que acompanha o seu aquecimento, traduz-se em enormes mudanças na vegetação, hidrologia e causa problemas graves nas infraestruturas no Ártico. As mudanças são de tal forma significativas, que já se fala num “novo Ártico”…e é mesmo verdade!

O projeto EO4PAC cria sinergias com um outro projeto financiado pela Comissão Europeia, em que estamos envolvidos, e que visa compreender melhor a dinâmica do permafrost nos ambientes costeiros do Ártico, numa abordagem interdisciplinar – o projeto Nunataryuk. Com o EO4PAC, a ESA quer potenciar o uso das suas tecnologias de Observação da Terra, pondo-as ao serviço da ciência e das políticas para as alterações climáticas no Ártico. Nesse quadro, estamos a utilizar diferentes fontes de dados de deteção remota, desde drones a satélites, para melhorar algoritmos de classificação automática da linha de costa e de levantamento pan-ártico de infraestruturas. A equipa do IGOT-CEG tem uma experiência muito relevante, pelo conhecimento detalhado do terreno, em especial no litoral do Mar de Beaufort, mas também pelas atividades desenvolvidas em comunidades locais e Indígenas, em especial envolvendo colaborações com o Alfred Wegener Institut e com os Serviços Geológicos do Canadá.

P3. Professor, explique sinteticamente a importância do trabalho desenvolvido pela IPA e qual a sua visão para a associação, na qualidade de vice-presidente.

A International Permafrost Association é a associação internacional que se dedica ao estudo do permafrost. Promove conferências, workshops, grupos de trabalho, apoia jovens cientistas e é também ouvida em várias organizações internacionais ligadas às regiões polares e ao Sistema Terra. O permafrost encontra-se hoje no Ártico, na Antártida, nos Himalaias – Planalto do Tibete – o 3º pólo (!), nas altas montanhas tropicais, e ainda em ambientes extraterrestres. Uma outra área importante de investigação, são os paleo-ambientes com permafrost. O meu trabalho na associação está neste momento ligado ao acompanhamento da Global Terrestrial Network for Permafrost (GTN-P), onde, aliás, o IGOT-CEG participa com a rede PERMANTAR (uma das principais redes da Antártica – http://permantar.weebly.com) e com a promoção da investigação sobre o permafrost antártico. A GTN-P é a base de dados global de temperaturas do permafrost e é usada quer para a análise da sua evolução, quer para a alimentação e validação de modelos climáticos globais e do sistema Terra. Sou também representante da IPA na International Conference on Arctic Research Planning (ICARP IV), um evento que irá decorrer em 2025, onde se delinearão as estratégias internacionais para a investigação e cooperação científica no Ártico. Como se depreende, a importância do trabalho da IPA no panorama global é, pelas piores razões, evidente. Devido ao aquecimento global e aos seus impactes, o permafrost tem-se tornado um dos mais relevantes elementos do sistema climático. A IPA, englobando e estruturando-se em torno do maior grupo de especialistas mundial em permafrost, é hoje uma associação forte e de relevância global. Já agora, convido à consulta da revista Frozen Ground, com as notícias da associação (https://ipa.arcticportal.org/publications/frozen-ground).

P4. Pode contar-nos um pouco sobre a sua trajetória pessoal e o que o levou a escolher a Geografia como área de estudo e profissão?

É uma pergunta difícil e à qual acho que só comecei a saber responder quando já era geógrafo há alguns anos. Sei hoje que a geografia sempre esteve presente na minha vida. Quando era miúdo, passava muito tempo à volta de mapas, planeava viagens e imaginava cenários distantes. Contudo, a minha preferência mais explícita, desde que me lembro e até por volta do 12º ano, sempre foi pela biologia. Nesse conturbado ano de 1989, ao explorar programas de vários cursos, deparei-me com uma geografia física, de que acho que nunca tinha ouvido verdadeiramente falar. Naquele programa entrava tudo de que gostava: cartografia, biogeografia, geologia, climatologia e, além disso, não tinha matemática, de que estava cansado, depois de um 12º ano pesado. Não hesitei e apenas concorri à então chamada Geografia e Planeamento Regional, variante de Geografia Física. Só fiz mesmo uma escolha. Entrei e nunca me arrependi. Desde então, tenho vindo a compreender que a geografia sempre me acompanhou. Sem que me apercebesse, e aos poucos, fui encontrando nela a ligação com as outras ciências naturais, que sempre me prenderam. Hoje, gosto de quase tudo o que faço profissionalmente e, em muito larga medida, a geografia abriu-me a maior parte dessas possibilidades.

P5. O que diria a um(a) jovem que está a considerar seguir a área da Geografia ou Planeamento e Gestão do Território no ensino superior?

Diria que se lhe interessam questões relacionadas com a dinâmica espacial de processos naturais ou humanos (ou de ambos), não hesite em escolher uma destas áreas. Estou seguro que com trabalho, esforço e dedicação, são áreas incríveis e que permitem desenvolver um grande leque de competências. Na verdade, o conhecimento em geografia não conhece fronteiras, quer no espaço, quer no tempo, nem mesmo nos temas de estudo e de aplicação, que são de uma enorme diversidade. Além disso, a preparação científica e técnica oferecida nestas licenciaturas é muito adequada para analisar e abordar de forma sólida e competitiva os desafios do mundo atual e das décadas que se avizinham.

P6. Na sua opinião, qual a contribuição da Geografia e do Planeamento e Ordenamento do Território para a compreensão do mundo atual?

A Geografia e a sua componente mais aplicada na área do ordenamento são hoje ramos do conhecimento de extrema diversidade. Moldados a partir de uma formação de base espacial, os geógrafos e os planeadores desenvolvem um tipo de raciocínio único, e uma forte capacidade de analisar de forma integrada e integradora, as diferentes componentes dos sistemas ambientais e socioecológicos. Os desafios do mundo atual e do Antropoceno apelam a mais e melhores geógrafos e gestores do território. A partir de uma raiz comum, um geógrafo vai construindo um tronco sólido, podendo especializar-se, ou tornar-se especialista na diversidade, o que faz com que vamos encontrando geógrafos com papel muito relevante, nas mais diversas profissões. A geografia leva-nos onde quisermos e o planeamento e ordenamento serão, provavelmente, os seus braços armados num planeta que, infelizmente, se encontra em rápido colapso.