Maria Lucinda Fonseca é geógrafa, Professora Catedrática do IGOT-ULisboa e investigadora do Centro de Estudos Geográficos, sendo a coordenadora do grupo de investigação MIGRARE.  Atualmente, é também a investigadora responsável pelo projeto Gearing-ROLES no IGOT/CEG, financiado pelo programa Horizonte 2020. Neste âmbito, foi publicado em setembro de 2020 o Plano para a Igualdade de Género do IGOT. Nesta entrevista, a investigadora fala-nos do projeto Gearing-ROLES e da sua trajetória pessoal e académica. 

P1: Professora Maria Lucinda, explique-nos como surgiu a oportunidade de trabalhar no GEARING-Roles e qual o seu maior desafio?

Maria Lucinda Fonseca: A minha participação no Projeto GEARING-Roles resulta de um convite de colegas da Universidade de Deusto, em Bilbau, Espanha, para colaborar na preparação de uma candidatura, no âmbito do Programa H2020 da União Europeia.

Em 2017, apresentámos um projeto intitulado “Overcoming resistances to gender equality in research performing organisations” mas, infelizmente, não conseguimos financiamento. Em 2018, submetemos a candidatura do Projeto GEARING-Roles, sobre a mesma problemática, mas mais focado na ação para a transformação da cultura institucional, tendo como objetivo desenhar, implementar e avaliar 6 Planos de Igualdade de Género, entre os quais o do IGOT.

O maior desafio deste projeto é vencer as resistências existentes, explícitas e implícitas, institucionais e individuais (de homens e mulheres), de forma que o Plano para a Igualdade de Género do IGOT seja verdadeiramente transformador e não apenas uma mera formalidade para cumprir as obrigações contratuais do Projeto GEARING-Roles, ou os critérios de elegibilidade das candidaturas para obtenção de financiamento de projetos de investigação, no quadro do Programa Horizonte Europa.

P2: A luta pela equidade tem vários anos e está longe de ter terminado. Na sua opinião, porque demorou tanto tempo para que as instituições, neste caso em particular as académicas e de investigação, se focassem nas questões da igualdade de género?

Maria Lucinda Fonseca: Em Portugal a igualdade de direitos e deveres, entre homens e mulheres, foi reconhecida apenas após a instauração do regime democrático, na sequência da revolução de 25 de abril de 1974. Esse reconhecimento permitiu alcançar progressos importantes, em matéria de igualdade de género, ao nível das políticas públicas e do quadro jurídico nacional. Contudo, os processos de mudança social são lentos, pelo que, na sociedade portuguesa, persistem ainda normas culturais genderizadas, inscritas nos papéis atribuídos a homens e mulheres, condicionando fortemente as suas atitudes e práticas, nas diferentes esferas da vida social. A cultura organizacional das instituições universitárias não pode desligar-se do contexto social em que se inserem e, por conseguinte, reflete a resistência de muitos setores da sociedade portuguesa à agenda da igualdade e da diversidade.

P3: O que torna a implementação de um Plano de Igualdade de Género tão importante?

Maria Lucinda Fonseca: A implementação de um Plano de Igualdade de Género é importante sobretudo por duas ordens de razões:

1. Sensibilização da comunidade académica para as desigualdades de género
O plano parte do diagnóstico do modelo organizacional, em matéria de igualdade entre mulheres e homens, em diferentes domínios: recrutamento e progressão na carreira profissional, incorporação da perspetiva de género no ensino e na investigação, liderança, conciliação entre vida profissional e vida familiar, sexismo e assédio moral e sexual. Esta análise é fundamental para que as instituições de investigação e ensino superior tomem consciência dos problemas existentes e possam definir, de forma fundamentada, medidas e ações necessárias a cada contexto particular. A existência de indicadores relativos à situação de homens e mulheres nas organizações onde trabalham e/ou estudam é essencial para dar visibilidade às desigualdades e a algumas formas de discriminação que ainda subsistem nas universidades. De outro modo, não será possível fazer face às resistências à mudança, frequentemente justificadas pelo princípio da igualdade de jure, e traduzidas em expressões do tipo: “Se as mulheres e os homens têm direitos iguais, não têm já as mesmas oportunidades?”.

A auditoria de género que serviu de base à elaboração do Plano para a Igualdade de Gènero do IGOT também foi importante para evidenciar a persistência de grandes diferenças, entre homens e mulheres, na conciliação entre a atividade profissional e a vida familiar, refletidas numa maior sobrecarga das últimas nas tarefas domésticas e na ainda reduzida taxa de usufruto, pelos primeiros, da licença de parentalidade, para além do período obrigatório, ou do direito de assistência a familiares. Estes comportamentos traduzem uma certa naturalização dos papéis de género, no trabalho e na família, contribuindo para a manutenção de estereótipos de género e para a reprodução do status quo. Além disso, no caso do IGOT, a adoção de uma estratégia participativa na elaboração do Plano para a Igualdade de Género foi fundamental para gerar consensos e promover o envolvimento institucional no seu desenho e implementação.

2. Promoção de uma cultura de diversidade e inclusão
A implementação de planos para a igualdade de género, nas instituições de investigação e ensino superior, fomenta uma cultura de diversidade e inclusão, contribuindo para desconstruir estereótipos e promover um ambiente de trabalho, investigação, ensino e aprendizagem, inclusivo de forma que todos/as sejam valorizados/as, coletiva e individualmente. O facto de se dar visibilidade à situação de desvantagem das mulheres na academia, relativamente aos homens, nomeadamente no que se refere ao acesso às posições de topo da carreira universitária, ou a cargos de gestão (direções de departamentos, unidades de Investigação, faculdades, reitorias, vice-reitorias, entre outras), estimula as mulheres a lutar pelos seus direitos e a combater eventuais formas de discriminação, resultantes de mecanismos de enviesamento inconsciente, com base no género, nos processos de recrutamento e promoção profissional do pessoal docente, de investigação e administrativo e técnico ou no acesso a cargos de gestão. Por sua vez, o mainstreaming de género, no ensino e na investigação, é uma componente fundamental da educação para a cidadania, contribuindo para a promoção da igualdade de direitos e deveres das mulheres e homens no trabalho, na família e em todas as outras esferas da vida social quotidiana.

P4: Pode contar-nos um pouco sobre a sua trajetória pessoal e o que a levou a escolher a Geografia como área de estudo e profissão?

Maria Lucinda Fonseca: A minha vinda para Geografia foi fruto do acaso! – Quando me matriculei na alínea c) do antigo sexto ano do liceu (atual décimo ano de escolaridade), não tinha a menor ideia que essa opção só dava acesso ao curso de Geografia! – Inicialmente, tinha escolhido a alínea f) porque eu gostava muito de Ciências Físico-Químicas e equacionava a hipótese de vir a ser a ser engenheira química. Contudo, no momento da matrícula, descobri que o plano de estudos das alíneas c) e f) divergia apenas numa única disciplina – a primeira tinha Geografia e a segunda Desenho. Como não tinha grandes dotes para as artes e era boa aluna a Geografia, mudei de planos. Só me apercebi das consequências da minha escolha, quando regressei a casa e a minha mãe, com ar muito preocupado, me perguntou se a alínea c) dava acesso aos cursos do Instituto Superior Técnico, a instituição para onde eu dizia que queria ir. Podia ter corrido mal, mas tive a sorte de encontrar uma professora de Geografia fantástica, professora Margarida Almeida, que me fez descobrir o fascínio da Geografia, estimulando a minha curiosidade pelo conhecimento de outros territórios e culturas, o gosto pelo trabalho de campo e pelas viagens e o interesse pela compreensão dos processos de transformação dos lugares ao longo do tempo. Lembro-me que me entusiasmei particularmente quando a ouvi falar, pela primeira vez, na teoria das placas tectónicas e nas glaciações, para nos falar da História do Planeta Terra, bem como com as discussões sobre o desenvolvimento desigual, quando estudávamos a Geografia das macrorregiões mundiais e os contrastes entre as cidades e regiões urbanas e os espaços rurais.

Ainda no 6º ano do liceu, tive oportunidade de visitar, com a professora Margarida Almeida, a Faculdade de Letras e o Centro de Estudos Geográficos. A partir dessa altura passei a ser frequentadora assídua da biblioteca do CEG para procurar bibliografia de apoio para os trabalhos que ela nos mandava fazer. Deste modo, quando em setembro de 1973 entrei para o curso de Geografia da Faculdade de Letras, não tive grandes dificuldades de adaptação. Como éramos poucos estudantes e fazíamos muito trabalho de campo, havia uma grande proximidade com os/as professores/as, pelo que o ambiente era muito acolhedor.

No segundo ano do curso, por convite do Professor Jorge Gaspar, passei a colaborar em projetos de investigação da Linha de Ação EPRU – Estudos para o Planeamento Regional e Urbano, que ele coordenava no CEG, e o meu gosto pela investigação foi crescendo. No final do 3º ano da licenciatura, mais uma vez por proposta do Prof. Jorge Gaspar, eu e o colega Diogo Abreu, fomos contratados como monitores da disciplina de Geografia Humana Geral, até à conclusão do curso, que nessa altura tinha cinco anos.

Como a maioria dos/as colegas do meu tempo de Faculdade, inicialmente, a minha expectativa de carreira profissional era ser professora de Geografia no ensino secundário. Ainda concorri, uns meses antes de acabar o curso, para fazer o estágio que dava acesso à profissionalização. Fiquei colocada no liceu Padre António Vieira, mas acabei por não aceitar o lugar.

A seguir à Revolução de 25 de abril de 1974, o número de estudantes do curso de Geografia, acompanhando a tendência geral de aumento do acesso ao ensino superior, cresceu de forma exponencial, pelo que, no verão de 1978, ano em que terminei a licenciatura, abriu um concurso para recrutamento de dois assistentes estagiários para a Área de Geografia Humana. Depois de alguma hesitação, graças ao estímulo dos Professores Jorge Gaspar, Manuel Viegas Guerreiro e Suzanne Daveau e também do meu avô materno, acabei por concorrer. Fui selecionada, juntamente com o meu colega Diogo Abreu e iniciei funções como assistente estagiária do ex-departamento de Geografia da Faculdade de Letras, em novembro desse mesmo ano.

P5: O que diria a um(a) jovem que está a considerar seguir a área da Geografia ou Planeamento e Gestão do Território no ensino superior?

Maria Lucinda Fonseca: Diria que a Geografia é uma formação aliciante para quem gosta da aventura de descobrir e conhecer o mundo em que vivemos, compreender os processos de mudança dos territórios, ao longo do tempo, em múltiplas escalas – do mundo aos lugares que frequentamos no nosso quotidiano. Falaria da relevância do conhecimento geográfico para o exercício de uma cidadania ativa, ajudando-nos a refletir criticamente sobre a história de cada lugar, cidade, país, macrorregião e do mundo na sua globalidade. Referiria a diversidade dos métodos de investigação e dos temas que a Geografia trata, chamando a atenção para os mais relevantes para responder aos grandes desafios do nosso tempo, bem como da necessidade de ter um espírito aberto para incorporar saberes e dialogar com outros domínios científicos, das Ciências Sociais, das Ciências Naturais e das Tecnologias. Daria exemplos da diversidade de profissões e atividades que os geógrafos desempenham, no ensino, na investigação, na Administração Pública, central, regional e local, nas empresas e nas organizações não governamentais, sublinhando que a escolha do curso de Geografia ou de Planeamento e Gestão do Território, deve pautar-se, em primeiro lugar, pelo interesse e gosto individual. A paixão pelo que fazemos, conjugada com uma sólida formação de base, ao nível teórico e metodológico, dedicação, sentido de responsabilidade, organização, capacidade para trabalhar em equipa e uma permanente disponibilidade para aprender e inovar, são ingredientes fundamentais para construir uma carreira bem-sucedida, num vasto leque de possibilidades.

P6: Na sua opinião, qual a contribuição da Geografia e do Planeamento e Ordenamento do Território para a compreensão do mundo atual?

Maria Lucinda Fonseca: A Geografia ensina-nos a perceber a forma como os territórios se organizam e transformam ao longo do tempo, pela conjugação da ação humana e dos fenómenos naturais. Permite-nos conhecer a genealogia do espaço e a identidade dos lugares, fornecendo as competências teóricas e analíticas para identificar as mudanças nos sistemas ambientais e socioeconómicos e os seus efeitos espaciais, em diferentes escalas geográficas, num mundo cada vez mais interligado.

A diversidade dos temas que a Geografia trata confere aos geógrafos uma grande flexibilidade para compreender relações complexas, antecipar tendências e resolver problemas transversais às ciências naturais e às ciências sociais. Deste modo, o conhecimento geográfico contribui também para o exercício de uma cidadania informada para fazer face aos grandes desafios ambientais e sociais da atualidade. O planeamento e o ordenamento do território traduzem esse conhecimento em ação, tendo em vista a preservação do ambiente, o desenvolvimento económico, a melhoria da qualidade de vida da população e a justiça espacial.