Os Professores e investigadores Nuno Marques da Costa e Eduarda Marques da Costa escrevem sobre a expressão geográfica face ao número de casos confirmados em Portugal relacionados com a pandemia do novo coronavírus (COVID-19).

[PDF] [Citar] Boletim n.º 1 | COVID-19: Expressão geográfica do número de casos confirmados em Portugal

Em 2019, a Organização Mundial de Saúde (OMS) apresentou uma lista revista do que considerou serem as dez grandes ameaças globais. Entre estas, contavam-se as pandemias decorrentes dos vírus influenza, a expansão do ébola e de outros agentes patogénicos de alto-risco, a resistência aos antibióticos, o vírus da dengue, a resistência à vacinação (OMS, 2019). Por outro lado, a OMS destaca que estas ameaças ganham importância adicional nas áreas urbanas, onde reside cada vez mais população.

A situação atual de pandemia dá realce à comunicação de 2019 e confere também um redobrado valor ao relatório publicado em 2016. A 31 de março, registaram-se 719758 casos confirmados e 33673 mortos em 202 países, valores que em 1 de abril, subiram para 823626 casos confirmados e 40598 mortos em 203 países. O continente europeu, com 424515 casos confirmados e 26701 mortos registados em 53 países no dia 31 de março, viu subir os valores para 464859 casos e 30098 mortos em 1 de abril. Este valor representa, de momento, 56% dos casos diagnosticados no Mundo, números que são liderados pela Itália, a Espanha e a Alemanha, ocupando Portugal o 11º lugar no conjunto dos países Europeus relativamente ao número total de casos registados.

O Portal da Direção Geral da Saúde – DGS disponibiliza informação diária sobre o número de casos confirmados, recuperados, óbitos e casos suspeitos, para o país e por regiões, sendo ainda possível obter o número de casos confirmados ao nível de cada concelho. Esta informação por concelho, apresenta algum atraso em relação aos dados do país e, pretendendo garantir a confidencialidade estatística, apresenta apenas valores para os concelhos com 3 ou mais casos, não representando por isso o total de casos em cada dia. No entanto, constitui um bom referencial para avaliar a difusão do fenómeno.

Número de casos confirmados (concelhos com 3 ou mais casos), segundo a data de publicação:
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Fonte:  https://covid19.min-saude.pt/ponto-de-situacao-atual-em-portugal/

Número de casos confirmados por 10 000 habitantes (concelhos com 3 ou mais casos) segundo a data de publicação:

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Fonte:  https://covid19.min-saude.pt/ponto-de-situacao-atual-em-portugal/

A análise da distribuição do número de casos por concelho, levantados nos dias 25 e 1 de abril de 2020 (8251 casos confirmados), mostra a velocidade da expansão do fenómeno e a sua penetração para o interior a partir das principais cidades e eixos urbanos do litoral.

Se considerarmos a evolução do número de casos por cada 10 000 habitantes, vemos a relevância que assume o litoral norte e centro do país e, daí, a sua penetração para o interior.

Concelhos com maior número de casos por 10 000 habitantes:

Concelhos 25/03/2020

(data da recolha)

Concelho 01/04/2020

(data da recolha)

Ovar 10,16 Ovar 35,85
Maia 7,55 Resende 35,15
Valongo 6,73 Vila Real 24,87
Lousada 6,20 Valongo 24,13
Porto 5,85 Maia 23,82
Lisboa 3,45 Porto 23,46
Gondomar 3,38 Gondomar 20,35
Matosinhos 3,10 Matosinhos 17,38
Felgueiras 3,00 Bragança 14,59
Espinho 2,71 Braga 13,47
Coimbra 2,54 Albergaria-a-Velha 13,26
Santa Maria da Feira 2,38 Vila Nova de Gaia 12,90

https://covid19.min-saude.pt/ponto-de-situacao-atual-em-portugal/

A Área Metropolitana de Lisboa e o Algarve, apresentam igualmente alguns concelhos com capitações elevadas. No caso do interior, para além das características demográficas (onde se destaca uma população envelhecida) é possível identificar o efeito da fronteira, quer no território de Trás-os-Montes, no eixo da Guarda, ou, mais a sul, no quadro do Alentejo.

Em resumo, este estádio da difusão da COVID-19 em Portugal relaciona-se com a hierarquia da rede urbana, difundindo-se a infeção a partir destes centros urbanos principais para outros aglomerados próximos. Para além das áreas metropolitanas e maiores cidades, o padrão parece refletir, em parte, pois há sempre uma dimensão acidental, a inserção internacional de alguns sistemas de produção industrial do norte e centro litoral com centros tecnológicos na Europa, mormente no norte de Itália, onde o surto da COVID-19 foi mais precoce e intenso.

Referências:

DGS (2020) Ponto de Situação Atual em Portugal, https://covid19.min-saude.pt/ponto-de-situacao-atual-em-portugal/ (acesso diário desde 25 de março de 2020)

WHO (2019) Ten threats to global health in 2019 https://www.who.int/news-room/feature-stories/ten-threats-to-global-health-in-2019 (acesso em 22 de março de 2020)

WHO (2020) Coronavirus disease (COVID-19) outbreak situation https://experience.arcgis.com/experience/685d0ace521648f8a5beeeee1b9125cd (acesso diário desde 25 de março de 2020)

WHO (2020) COVID-19 situation in the WHO European Region, https://who.maps.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html#/ead3c6475654481ca51c248d52ab9c61 (acesso diário desde 25 de março de 2020)